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Crítica · Cinema nacional

A Última Sessão do Cine Aurora transforma uma sala vazia em um país inteiro

O novo longa de Helena Vasconcelos acompanha a noite final de um cinema de rua no interior e faz da despedida um retrato delicado de quem ainda acredita no escuro compartilhado.

Por Marina Teles 12 min de leitura Obra fictícia, criada para esta publicação de demonstração
Direção
Helena Vasconcelos
Duração
1h58
Gênero
Drama
Classificação
12 anos

Há filmes que começam com um plano de estabelecimento e há filmes que começam com um som. A Última Sessão do Cine Aurora abre com o estalo de um projetor sendo ligado pela última vez, e esse ruído mecânico, quase doméstico, diz mais sobre o que vem pela frente do que qualquer letreiro. Estamos numa cidade pequena, numa sexta-feira de chuva, e o Aurora vai fechar as portas depois de sessenta anos.

Helena Vasconcelos filma essa noite em tempo quase real. Seu Antônio, o projecionista, chega cedo; Dona Lurdes abre a bilheteria com o mesmo cuidado de sempre; um grupo de adolescentes aparece porque ouviu dizer que a entrada é de graça. Nenhum deles é exatamente protagonista. O protagonista é a sala, e o filme tem a coragem de deixá-la respirar.

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Um filme sobre olhar junto

O grande achado da diretora é recusar a nostalgia fácil. O Aurora não é mostrado como templo intocado: as cadeiras rangem, o ar-condicionado falha, a tela tem uma mancha que ninguém nunca conseguiu limpar. O que se perde quando o cinema fecha não é a perfeição técnica, e sim a experiência de estranhos rindo da mesma piada no mesmo segundo.

“A sala não é o lugar onde o filme passa. É o lugar onde a gente percebe que não está sozinho vendo.”

A fotografia trabalha quase sempre com a luz que vem da própria tela, e os rostos da plateia se tornam a paisagem do filme. Em uma das sequências mais bonitas, a câmera percorre a fileira de espectadores enquanto ouvimos apenas a trilha do filme que eles assistem, um faroeste antigo, e cada rosto reage de um jeito diferente à mesma cena.

Elenco em estado de escuta

O elenco, em grande parte formado por atores locais, sustenta essa delicadeza. Não há grandes discursos nem cenas de choro anunciadas. A emoção chega de lado, num gesto de Seu Antônio limpando a lente pela última vez, num bilhete esquecido debaixo de uma poltrona. É cinema de detalhes, que pede do público a mesma atenção que os personagens dedicam à tela.

Se há um senão, ele está no epílogo, que explica demais o que o filme já havia mostrado com tanta elegância. Mas é um tropeço pequeno diante de uma obra que entende, como poucas, que ir ao cinema é um ato coletivo, e que cada sala que fecha leva consigo um pedaço da forma como uma cidade se reconhece.

9,0

Um drama sensível e sem nostalgia fácil, que faz da despedida de um cinema de rua uma reflexão sobre comunidade. Para ver, de preferência, numa sala cheia.

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